Uma tradução que eu fiz, da análise de Crime e Castigo por Konstantin Muchulsky.
[As citações copiei de uma tradução indireta do livro do Dostoievski. Se conseguir a versão da editora 34 (parece que é a única direta), substituo aqui.]
Os cinco atos de Crime e Castigo - KONSTANTIN MUCHULSKY
de: Dostoevsky - his life and work (Princeton University Press, 1967) pg 300-313
"Crime e Castigo" é uma tragédia de cinco atos com prólogo e epílogo.
O prólogo (a parte um)
retrata a preparação e perpetração do crime. O herói está envolto em mistério. Um estudante pobre que tem medo do senhorio; encontramo-lo num estado de saúde que “lembra a hipocondria”.
Ele vai a uma usurária para penhorar seu relógio e fala de certa
“iniciativa”. “Eu desejo praticar uma iniciativa de tamanha
proporção, mas ao mesmo tempo me perturbo com besteiras!...
Serei mesmo capaz de conseguir?”.
A palavra "assassinato" não é pronunciada. “Meu Deus!” exclama Raskolnikov, enquanto sai do
apartamento da usurária “Como
tudo isto é repugnante!... De que porcaria é capaz a minha alma!... É sujo, brutal, mau, mau!”. Esse “sonho
escandaloso”, que por um mês dominou a mente do rapaz enquanto ele deliberava em seu quartinho, agora provoca espasmos de repulsa.
Assim, nas primeiras páginas do romance, conhecemos um herói em
estado de intenso conflito. Ele não acredita que é capaz de
concluir a “iniciativa”: tal ideia é puramente teórica. “A
verdade é que durante este último mês deu-me a mania de falar,
enquanto me deixo ficar estendido ruminando no meu canto...
Divirto-me, mas é à custa da minha imaginação, é uma
brincadeira!”. O sonhador abomina sua falta de
traquejo social; ao mesmo tempo, o romântico nele é esteticamente ofendido pela “vilania” do ato. Essa divisão na consciência do herói é o
começo de um processo de autoconhecimento. Dois temas são
introduzidos na cena da taverna com Marmieládov - o sofrimento sem
fim do ser humano e a inutilidade do sacrifício (Sonya). A carta da
mãe obriga o herói a tomar uma decisão. Sua própria irmã
prepara-se para o sacrifício, vendendo seu futuro a Lúzin, o
detestável negociante. Ela está entrando na mesma estrada de Sonya.
“Sônietchka!
Sônietchka! Sônietchka! Eterna Sônietchka Marmieládova, enquanto
o mundo existir!”, Raskolnikov exclama. E o
sacrifício é feito por causa dele. Poderá aceitar? E se não, o que o
espera? Pobreza, fome, aniquilação?
“Ou
renunciar completamente à vida”, diz ele,
“Aceitar
o destino docilmente, tal como é, de uma vez para sempre, e abafar
tudo no seu íntimo, renunciando a todo o direito à ação, a viver
e a amar! “. O dilema é proposto na sua forma
mais acume. A moral cristã prega humildade e sacrifício - mas
Raskolnikov perdeu a fé. Ele é um ateu humanista; as velhas normas
de justiça e verdade, para ele, transmutaram-se em mentiras. Ele tem
certeza absoluta de que humildade e sacrifício só podem levar à
ruína. E o que uma pessoa deve fazer? Aceitar sua destruição? É
possível que o homem não tenha direito à vida? Que seja
imoral transgredir a velha lei – mas então é moral conduzir-se à
destruição e à ruína? “Toda essa angústia criou-se dentro dele
muito tempo atrás. Desde então, ela amadureceu e concentrou-se,
tomando a forma de uma terrível, violenta e inacreditável
questão”. A carta da mãe é o
ponto de mutação no destino do herói. Até então, ele ficara atirado no
sofá resolvendo questões abstratas; a vida, agora, exigia ação. O
sonhador é pego de surpresa. Por um mês, degustou a “inacreditável
questão”; “agora
surgia, não como um desvario, mas com uma aparência nova, de certo
modo ameaçador e absolutamente desconhecido, e ele próprio o
reconhecia... O sangue subiu-lhe à cabeça e os olhos
nublaram-se-lhe”. Um novo estado de
consciência foi atingido: a ideia começa a tomar substância.
Apesar disso, o herói não consegue reconstruir, de uma vez só,
todo seu ser. Apesar da razão aprovar a nova “ideia”, a
“natureza” continua a viver segundo a velha ordem moral. Pouco a
pouco, aquele sonho abstrato toma conta de sua consciência. A
“natureza” luta contra o sonho, desesperada, horrorizada, esforça-se
para não acreditar nele, finge não vê-lo. Para
diminuir essa resistência, o autor introduz o tema da doença. A
condição patológica do herói é constantemente sublinhada: depois
do assassinato, ele repousa por quatro dias em estado de delírio
nervoso, doença que perdura até o fim do romance. Assim, usando a si próprio de exemplo, Raskolnikov prova a razoabilidade de sua teoria. Não
defendeu ele, em artigo intitulado “Sobre o Crime” que “o
ato de cometer o crime é sempre acompanhado de um estado mórbido”? Só a doença física é capaz de demolir a
desiludida “natureza”, de superar a repulsões do esteta pela
“vilania” do assassínio. A natureza declara guerra total ao
“sonho escandaloso”. Toda compaixão de Raskolnikov, sua
angústia e horror diante do mal, encontram expressão no pesadelo do
cavalo. Mikolka espanca os olhos do animal com um bastão e, depois, mata-o com uma barra de ferro. O herói vê-se enquanto criança.
“Pôs-se
a chorar. Sentiu o coração oprimido e as lágrimas saltaram-lhe... Lançando um grito, abre caminho por entre a gente, até a égua,
pega-lhe no focinho morto, ensanguentado, e beija-o nos olhos e nos
lábios...”. O ato cruel enche-o de horror.
Pela primeira vez, ele vê o ato de assassinar, não como uma equação algébrica, mas como sangue derramado no chão – e isso o horroriza. Ele
também matará uma criatura, igual Mikolka fez – sangue correrá,
pegajoso, quente. Raskolnikov renuncia ao plano... “Não,
não sou capaz, não sou capaz!... 'Senhor', implorava, 'mostra-me
o meu caminho e eu libertar-me-ei desses malditos... desvarios'”.
O pesadelo que o conduziu de volta à infância faz ressurgir sua fé
de menino e, assim, o ateu apela a Deus. Ele cresceu em uma família
religiosa. “Lembro-me,
meu amor”, sua mãe escreve, “de como desde criança, ainda em
vida de teu pai, balbuciavas as tuas orações sentado nos meus
joelhos, e como todos éramos felizes, então!”.
A “natureza” rejeita o veneno que penetrou no organismo: a ideia
do assassinato. Raskolnikov exulta de liberdade: “Liberdade,
liberdade! Agora estava livre daquele feitiço, daquele sortilégio,
daquela fascinação, daquela tentação!”.
Mas a vitória dura pouco. A ideia já penetrou-lhe no subconsciente
e, depois do último estertor de rebeldia, torna-se sua força
motriz, seu destino. O herói não tem mais controle da
própria vida, é empurrado adiante. Ocorrências misteriosas conduzem-no rapidamente ao assassinato da vítima. Ele chega, por acaso, ao Mercado do Feno, onde, também por acaso, descobre que às oito
horas a velha usurária estará sozinha. “O
seu primeiro assombro pouco a pouco foi-se transformando em espanto... Não pensava em nada e tinha perdido completamente toda a
faculdade de raciocínio; mas, repentinamente, com todo o seu ser,
sentiu que não tinha já liberdade de reflexão, nem vontade, e que,
de súbito, tudo se resolvera definitivamente”.
No dia do assassinato,
age mecanicamente: “era
como se alguém lhe tivesse pegado pela mão e o tivesse obrigado a
seguir irrevogavelmente, cegamente, com uma força sobrenatural, e
sem que pudesse opor a menor objeção. Poderia dizer-se que deixara
apanhar a ponta da roupa numa roda de engrenagem que começava a
puxá-lo”. Por vontade própria, o assassino entrega-se à força
sombria do determinismo. Despido de liberdade,
age com o automatismo de um sonâmbulo. Tudo toma lugar
inesperadamente e por acaso: ele pega o machado, não na cozinha,
como tinha planejado, mas na portaria; acidentalmente, mata
Lisavieta; esquece-se de trancar a porta; não tem ideia de como
consumar o roubo. “Era como um delírio... Ele esqueceu de si
mesmo. Não
dormia, afundou-se num torpor.” O prólogo
termina com o assassinato. Por enquanto, nem herói nem leitores
sabem o real motivo do crime.
O primeiro ato da
tragédia (a parte 2) retrata os efeitos imediatos do crime no
espírito do criminoso. Raskolnikov sofre um terrível choque
psicológico. Ele cai, com um ataque de nervos e com febre. Está próximo
da loucura e deseja esconder-se. “O quê, será que já começou?
Pode estar assim tão próxima minha aniquilação?”. Ele tenta
rezar e ri de si mesmo. O riso vira desespero. Ele é convocado ao
Comissariado de Polícia por causa de uma dívida não paga à
senhoria. Concluí, entretanto, que seu crime foi descoberto e
prepara-se para cair de joelhos e confessar tudo. Quando chega lá,
seus nervos não aguentam e ele desmaia. Esse é o momento fatal do
destino: o assassino atraí a atenção de Zamiótov,
o secretário, que mais tarde fala do estranho estudante a Porfíri,
o Juiz de instrução. A oposição contra Raskolnikov é posta em
movimento por causa desse desmaio sortílego; serve ele para tecer o
primeiro fio da rede em que o Juiz eventualmente irá prender o
estudante. O criminoso é traído pela “natureza”. Na tempestade
de sentimentos e sensações que absorvem o assassino, uma começa
a predominar. “Uma
impressão mortal de torturante, infinita solidão e alheamento se
revelava subitamente à sua consciência”. Ele
aguardara o castigo que as dores da consciência infligiriam: nada
veio. Veio, entretanto, outra coisa: uma cognoscência mística de
seu alheamento da família humana. O assassino transgrediu mais uma coisa
além da lei moral: ele transgrediu o próprio fundamento do mundo
do espírito. Depois de enterrar o produto do roubo debaixo de
uma pedra, pergunta: “Se,
na realidade, tivesses feito tudo isso de um modo consciente e não
de uma maneira estúpida; se tu, efetivamente, tivesses tido uma
finalidade concreta e firme, como seria possível que, até agora,
nem sequer tivesses reparado no que estava dentro do porta-moedas e
não saibas sequer quanto apuraste ao todo?”.
O humanista sonhador foi derrotado. Seu ridículo ficou provado pelo curso da ação: teve medo, cometeu gafes, perdeu a cabeça. Se tinha
mesmo matado a velha senhora para roubá-la, porque não queria o
fruto do roubo? Ou o feito foi perpetrado "frivolamente", e
a motivação humanística era apenas um pretexto? A crise de
consciência é acentuada por uma mistura de doença e amnésia, que duram um período
de três dias. Quando o herói finalmente volta a si, o homem
anterior, o sensível “amigo da humanidade” que havia nele, já
está morto. Raskolnikov tem ciência da sua infinita solidão e não
se sente oprimido por ela. Ele “cortou-se
de tudo e de todos, com uma faca”. Acha as
pessoas insuportáveis: “Deixa-me,
deixem-me todos! - gritou Raskólhnikov com fúria - Deixem-me de uma
vez, verdugos! Eu não tenho medo de vocês! E agora já não tenho
medo de ninguém, de ninguém! Fora daqui! Quero estar só, só, só!”
Assim, uma nova consciência nasce - a consciência de uma
personalidade forte, diabolicamente orgulhosa e solitária. Seus
medos, sua frouxidão e a doença sumiram. O herói sente uma
poderosa energia que surge dentro dele; ele sente que suspeitam de
si, que o estão seguindo, mas com um sorriso arrebatador atira-se na
batalha. Quando encontra Zamiótov numa taverna, solta um insolente
desafio: “E
se fosse eu quem tivesse assassinado a velha e Lisavieta?”.
Ele experimenta “uma
violenta comoção histérica, a qual, no entanto, se misturava um
certo prazer”. Vai à casa da velha senhora,
entra no apartamento, toca a sineta, pergunta do sangue. Quando está
saindo, informa seu nome e endereço ao porteiro. Esse novo e audaz
espírito que começa a queimar dentro dele supera o corpo, a
oposição da “natureza” é destruída. O audacioso lutador
relembra dos medos e fantasmas com desdém: “ 'Há vida!', ele
exclama,
'Minha vida não morreu ao mesmo tempo que a da velha viúva! Ela
está no céu e... Já chega, velhota; agora já é tempo de ir
descansar e deixar-me em paz! Que agora comece o reino da razão e da
luz, da liberdade e da força, e depois... veremos! Vamos ver qual de
nós é que ganha!' ”, adiciona arrogante, como se desafiando uma
força desconhecida . O herói trágico faz um
desafio ao destino. O novo indivíduo extraordinário é
dotado de “astúcia animalesca”, coragem inédita, vontade de
viver absoluta e orgulho demoníaco.
O segundo ato (a parte
três) relata a luta do “indivíduo extraordinário”. O autor
reforça nossa nova impressão do herói através de diversas
caracterizações indiretas. Razumíkhin observa sobre o amigo:
“Conheço
Rodka: áspero, severo, altivo e orgulhoso... Às vezes… frio e
insensível ao ponto de não parecer humano. Verdade, é como se
existissem duas personalidades opostas dentro dele e que se alternam. .. É
terrivelmente orgulhoso,
admira-se a si próprio e, segundo parece, não sem alguma razão... Não
ama ninguém
nem nunca amará”. Pulkhiéria
Alieksándrovna descreve o plano insólito do
filho de casar com a filha tuberculosa da senhoria: “O
senhor pensa - continuou com veemência - que nessa altura o teriam
detido as minhas lágrimas, as minhas súplicas, a minha doença e
até talvez a minha morte, devido à nossa angústia, à nossa
miséria? Teria
passado com a maior tranquilidade por cima de todos os obstáculos”.
Assim, a “segunda personalidade” de Raskolnikov nos é revelada
como sendo diametralmente oposta à primeira. Vemos que enganava a si
próprio ao dizer que “pecaria” pelo bem e felicidade da mãe;
ora, ele “teria
passado com a maior tranquilidade por cima"
até da morte dela para satisfazer um simples capricho.
O herói percebe que
Porfiri suspeita de si, e por isso começa a desafiá-lo. Ele não
aguenta a inércia e a incerteza. Está impaciente para “testar sua
força”. Durante o primeiro encontro com o Juiz de instrução,
expõe sua teoria dos “indivíduos extraordinários”. “Os
indivíduos extraordinários tem direito (claro que não um direito
oficial) a autorizar a sua consciência a saltar por cima de...
certos obstáculos” Razumíkhin percebe a
terrível essência dessa teoria: “O
que, de fato, é original em tudo isso... É tu chegares a dizer
que se pode "em consciência" derramar sangue,
"conscientemente"... Isso, isso, a meu ver, é mais
terrível do que seria uma autorização oficial e legal de verter
sangue...” . O terrível não é apenas que a
teoria de Raskolnikov nega a moral Cristã, mas que ela vai além -
estabelece uma nova moral, anti-Cristã, no seu lugar. O “indivíduo
extraordinário” não é um ser sem consciência, mas sim um ser dotado de
uma consciência própria que lhe autoriza sem culpa o
derramamento de sangue. Mas no alto de sua preeminência solitária,
o demônio altivo é triste. “Me parece”, diz Raskolnikov, “Que
as pessoas verdadeiramente grandiosas experimentam uma tristeza
incomensurável enquanto na Terra”. A tragédia do “homem-Deus”
está resumida nessa sentença. E, de repente, o herói
é derrotado. Logo depois do primeiro encontro com Porfiri,
Raskolnikov sofre uma profunda humilhação. Um artesão aproxima-se
dele e, em “voz
calma, mas clara e distinta”, diz:
"assassino". Quem é esse homem e o que viu? Isso significa
que há evidências contra o estudante? Que ele não teve competência
nem mesmo para cometer um assassinato? “E
como me atrevi, sabendo como sou, pressentindo-me, a brandir a
machada e a derramar o sangue...?”. Não, ele não é um indivíduo
extraordinário. “Eu
não queria mais nada senão passar o mais de pressa possível por
cima do obstáculo... Eu não matei nenhuma pessoa humana; matei
apenas um princípio. Um princípio, foi o que eu matei; mas saltar o
obstáculo, não saltei; fiquei do lado de cá...”. Até o
fato de que ele desconfia de si mesmo, não acreditando na própria
força, é prova de sua fraqueza. Não, ele não é um Napoleão, mas
um “piolho
estético”, “ainda
mais repugnante e indigno do que o piolho assassinado”. “Oh,
vulgaridade! Oh, baixeza! Oh, agora eu compreendo o profeta, com a
sua espada, a cavalo, que diz: é Alá que o manda, obedeça -
'trêmula criatura'!” Essa crise culmina num
sonho terrível. Raskolnikov, de machado na mão, enfia-o no crânio
da mulher, que simplesmente inclina a cabeça para frente e
“retorce-se
num riso abafado, inaudível”. A vítima ri do
assassino: ela está viva. Ele ataca de novo e de novo, e ela ri mais
forte. É impossível matá-la: é imortal. E, ainda assim,
não faz muito tempo que Raskolnikov deu-a um último adeus, com
desdém: “Já
chega, velhota; agora já é tempo de ir descansar!”.
Agora, todos a sua volta são mortos, enquanto a velha continua viva.
Sim, ele se cortou do mundo dos vivos “com uma faca”, mas dela
foi impossível separar-se - pois estão unidos para sempre... Pelo sangue.
O terceiro ato da
tragédia (a parte quatro) leva a luta de Raskolnikov ao clímax. O
herói parece ter triunfado, mas sua vitória é só a derrota
disfarçando-se. Ele acorda do terrível sonho; parado a sua frente
está Svidrigáilov,
o homem que abusou de sua irmã. Raskolnikov encontra-se tragicamente
dividido: existem “duas
personalidades opostas dentro dele”. O
“indivíduo extraordinário” luta contra o humanista,
tortuosamente libertando-se de "princípios" e "ideais".
Svidrigáilov é idêntico a Raskolnikov, mas já foi bem-sucedido
em “curar-se” de todos os “preconceitos” morais. Ele é a
personificação de uma possível solução para o herói. Existe uma
semelhança metafísica entre os dois. “Por
acaso”, diz Svidrigáilov, “Tenho a impressão de que o senhor
tem qualquer coisa de parecido comigo...”.
Ambos seguem o mesmo caminho, mas Svidrigáilov, sendo mais livre e
audaz que Raskolnikov, caminha-no com absoluta determinação. O
estudante “atravessou o obstáculo”, autorizou “ 'em
consciência' derramar sangue, 'conscientemente' ”, mas continua
defendendo o “humanismo”, a “justiça”, “aquilo que é
nobre e belo”.
Svidrigáilov diz que a
vida eterna é, para ele, uma sala de banho em pleno campo “negra
de fumo e com aranhas por todos os lados”.
Raskolnikov pergunta com nojo: “Mas
diga-me, diga-me: não pode imaginar nada de mais consolador e
justo?”. Svidrigáilov responde com escárnio:
ele, um assassino, falando sobre justiça? Pregando moralidade? Que
hipocrisia! Por que não entregar os dez mil para Dunia, do homem que
a abusou? Ora, "os fins justificam os meios"! Raskolnikov
aboliu a velha moral, mas ainda apega-se a beleza, honra e todo o
lixo humanista. Svidrigailov é mais consistente: bom e mal são
apenas conceitos relativos; tudo é permitido - tudo e uma coisa são
um só. O resto é banalidade vulgar e tédio universal. E ele está
entediado. Distraiu-se de todas as formas que pode: foi jogador,
passou um tempo na prisão, vendeu-se por 30 mil para a esposa
falecida. Talvez faça um viagem de balão ou lidere uma expedição
ao polo norte. Tem visões, fragmentos de outros mundos... mas que
terríveis banalidades! O tédio de Svidrigailov não é psicológico,
é metafísico. Os absolutos funde-se; bom e mal são
indistinguíveis - um infinito deformado, indiferente, absurdo. Svidrigáilov não é um simples vilão: ele deixa Dúnia escapar,
generosamente; contribui com dinheiro, ajuda os Marmieládov. Ele
testa sua liberdade no mal e descobre que ela não tem limites. Por
um tempo, é distraído com sua paixão por Dúnia. Mas termina
suicidando-se por tédio. O super-homem não consegue encontrar algo para fazer no meio dos homens. Como sua força não tem escape,
torna-se autodestrutiva.
Svidrigáilov é
degenerado. Possui crimes terríveis na consciência: o assassinato
da mulher, o suicídio do servo Filipp e a menina de quatorze anos
que abusou. Ele ama a pior devassidão, mas sua consciência está
em paz e carrega a “expressão leve”. Ele é posto ao lado de
Raskolnikov para servir como seu duplo sombrio. Nasce direto do
pesadelo do herói; emerge de dentro de seu sonho. O herói pergunta
a Razumíkhin
“Tu
o viste? Viste-o bem?... Hum!
É que... Sabes uma coisa? É que pensei... parece-me... que tudo
isso podia ser apenas uma fantasia.”. Do
mesmo modo que Ivan Karamazov pergunta a Alyosha se ela viu seu
visitante. Svidrigáilov é o "diabo" de Raskolnikov. Esse encontro com o
duplo marca um novo estágio na consciência do herói. Convencido de
sua derrota (“Não um Napoleão, mas um piolho”), começa a
perder o senso de realidade. Vive em estado de delírio, incapaz de
diferenciar sonho e realidade (a aparição de Svidrigáilov). A ação
rapidamente move-se para o desfecho.
Em oposição a essa
cena com Svidrigáilov, está a cena com Sonya; o anjo mal é
contraposto pelo anjo bom, a “sala de banho com aranhas por todos
os lados” pela ressurreição de Lázaro. Svidrigailov mostrou a
Raskolnikov que o caminho da perniciosidade leva apenas ao tédio do
não-ser. Sonya mostra outro caminho, revelando a imagem Daquele que
diz: “Eu sou o caminho”. O assassino pode ser salvo somente pelo
milagre, e Sonya reza fervorosamente por um. Igual na conversa com
Svidrigáilov, o diálogo com Sonya termina planando por terrenos
metafísicos. Sonya responde aos argumentos do herói, sobre o
absurdo do auto-sacrifício, a futilidade da compaixão e
inevitabilidade da ruína e da destruição, com sua fé em um
milagre. “Deus,
Deus não há de permitir tamanho horror ”. “ 'Sim, mas até é
possível que Deus não exista', respondeu Raskólhnikov com uma
espécie de alegria maldosa”. De repente, ele
pede a ela que o leia no Evangelho "sobre Lázaro". Ela
acredita que “Ele,
ele também, cego e incrédulo, também ele ouvirá imediatamente e
também acreditará, sim, sim. Agora mesmo ”.
A leitura termina. Raskolnikov recebeu uma resposta para sua pergunta
imaginária. “O que
ela está esperando? Um milagre? Naturalmente, algum. E
não será isso um indício de loucura?".
O milagre não aconteceu. A fé do assassino não foi restaurada, e
ele apenas concluiu que Sonya era louca: acredita de verdade na
ressurreição de um cadáver morto por quatro dias!
Ele chama Sonya de
“grande pecadora”; ela é tão culpada de amaldiçoar a própria
alma quanto ele “Você arruinou uma vida... a sua (é a mesma
coisa)”. Essas terríveis palavras em parenteses “(é a mesma
coisa)” estão cheias de malícia e perniciosa falsidade.
Sacrificar a si mesma pelos entes queridos não é igual ao ato de
destruir a vida de um próximo! Horrorizada, Sonya pergunta: “Mas
que hei eu de fazer?”. “Que fazer?”,
responde o demônio, “Romper
de uma vez para sempre, só isso, e suportar a dor. O quê? Não me
compreendes? Hás de compreender-me depois... Liberdade
e poder,
sobretudo poder! Sobre toda a criatura que treme e sobre todo o
formigueiro! É esse o objetivo!”. A leitura
do evangelho causa uma euforia de orgulho diabólico. Ruína e
destruição são colocadas em oposto a Ressurreição (“Romper
de uma vez para sempre, só isso”); o amor
pelo poder sobrepõe-se e desafia a humildade; a figura do homem-Deus
se opõe a do Deus-homem.
O orgulho do criminoso
leva-o a desafiar Porfíri para um segundo encontro. Ele exige que
“se
me interrogar, faça-o de acordo com a lei.”.
O Juiz de Instrução analisa em detalhes a conduta do assassino
depois do crime, enumera seus erros e mostra que “psicologicamente,
ele não vai fugir”. O ódio do herói cresce a cada minuto. Por
fim, não aguenta. “ 'Você mente
sobre tudo', gritou Raskólhnikov, já sem poder conter-se. 'Estás
mentindo, maldito polichinelo!... Tu mentes e irritas-me para que
me entregue...' ”. E repentinamente, somos
confrontados com uma inesperada peripeteia. Porfiri esperava expor o
assassino com base no testemunho do artesão, mas Nikolai, o pintor,
aparece e confessa que foi ele quem matou a usurária. Raskolnikov ri
da evidência que o Juiz queria produzir, da sua “psicologia da
faca de dois gumes”. “Agora
podemos continuar lutando”, ele exclama
orgulhoso.
O quarto ato (a parte
cinco) marca a desaceleração da ação antes da culminação da
catástrofe. A maior parte é dedicada a cena na qual os personagens
reúnem-se para o jantar em homenagem a Marmieládov. No decorrer
desse segundo encontro com Sonya, o indivíduo extraordinário chega
no último estágio do seu processo de autoconhecimento. Com
desprezo, rejeita como “idiota” a ideia de que o crime foi
cometido por razões humanitárias. “Ridículo! Eu matei, simples!
Eu matei por mim mesmo, só por mim!”, Raskolnikov declara. Ele
conduzira uma experiência, estava resolvendo um enigma de sua
própria personalidade. “Eu precisava saber, e rápido, se
era um piolho como todos os outros ou um homem. Posso
atravessar o obstáculo, ou não? Sou uma criatura que treme ou
possuo o direito?”. Ele nutre desprezo máximo pelo “rebanho”
humano. Essa “criatura que treme” deve ser submetida à vara do
aço. O indivíduo extraordinário ascende em revolta contra a ordem
do mundo... “De
repente tornou-se-me claro como a água, surgiu-me em toda a
evidência que, até hoje, ninguém se atrevera, nem se atreveria, ao
passar junto a toda essa estupidez, a pegar-lhe simplesmente pelo
rabo e a atirar com ela para o diabo. Eu... eu queria atrever-me, e
matei...” Raskolnikov continua a revolta
iniciada pelo homem do subsolo (“cabe a nós mandarmos todo esse
senso comum estúpido... para o inferno”) e prepara caminho para o
despotismo do Grande Inquisidor. Uma moral da força leva a uma
filosofia da violência. O super-homem é o Príncipe desse mundo -
o Anti-Cristo. Raskolnikov resume com desdém: “eu
queria ser um Napoleão... Foi por isso que matei”.
Ele concebe seu erro: o homem que duvida do seu direito de tomar à
força o poder, não tem direito a tal poder e, consequentemente, é
um “piolho” como todos os outros. “Matei
eu a velha? Eu me matei a mim mesmo, eu não matei a velha”.
Sonya diz: “Deus
feriu-te, entregou-te ao poder do mal!”. E o
assassino, na verdade, aceita essa explicação: “Olha,
eu mesmo sei que foi o diabo que me arrastou”.
Agora não faz diferença para ele quem é o culpado de sua derrota –
Deus ou o Diabo. Já que está claro que ele é apenas um “piolho”,
porque não admitir que outrem divertia-se as suas custas? Sonya o
diz para beijar o chão, entregar-se, “aceitar
o sofrimento e redimir-se por meio dele”. Ele
não acredita nem em sacrifício nem em redenção. O amor de Sonya
produz “ódio mortal” no jovem. Ele se entregará porque é
“covarde, idiota”, mas nunca irá se submeter a humilhação e
arrepender-se. Novamente, o orgulho enche-se nele: “Talvez
eu, apesar de tudo, seja um homem e não um piolho, e me tenha
julgado com demasiada precipitação... Apesar de tudo hei de
lutar...”.Ele não rejeita a
teoria da força e do poder: “Sônya
compreendia que aquela lúgubre catequese era nele sincera, que era a
sua verdade”.
O quinto ato (a sexta
parte) revela a catástrofe. O autor ilustra a ruína paralela dos
dois “indivíduos extraordinários” - Raskolnikov e Svidrigáilov.
O assassino tem uma premonição de seu fim: está em estado de
semi-delírio, vaga sem propósito pelas ruas, para numa taberna,
dorme em algum lugar nos canteiros... “A falta de ar no meio de
toda confusão começou a sufocá-lo”. A chegada de Porfíri
Pietrovitch resolve a tensão. O Juiz analisa o "processo
psicológico do crime" e dá a ele uma definição histórica.
“Isto
é antes um assunto fantástico, lúgubre, um
assunto contemporâneo, um episódio do nosso tempo,
em que o coração do homem anda tão torturado, em que se cita essa
frase de que o 'sangue revitaliza'... Aqui, trata-se de sonhos
livrescos, de
algum coração exasperado por teorias”.
Como se buscando ar, Raskolnikov pergunta: “Então...
quem... é o assassino?” “Porfíri
Pietróvitch deitou-se para trás na sua cadeira, como se essa
pergunta o apanhasse também de imprevisto e o deixasse estupefato.
'Quem
é o assassino?', repetiu, como se não acreditasse no que acabava de
ouvir. 'Pois o assassino é o senhor, Rodion Românovitch! É o
senhor o assassino!' ”.
Após a derrota do
“homem extraordinário”, vem sua desmistificação. Svidrigáilov toma
o lugar de Porfíri. Este apontou o erro teórico de Raskolnikov
(“sonhos livrescos”); aquele revela sua hipocrisia moral. “Ao
que eu me quero refete da América... Compreendo os problemas que
deve ter; morais, não é verdade? Problemas respeitantes ao homem e
ao cidadão, não é verdade? Mas o senhor não os pôs já de lado?
Por que se preocupa agora com eles? He, he! Por quê ainda é um
cidadão e homem? Se assim fosse não devia ter-se metido nessa
embrulhada. Ninguém deve lançar-se em uma empresa que não vá lhe
trazer vantagem”, ele diz, “é que o senhor está sempre a
queixar-se, sim, a queixar-se. O
Schiller que há em si é perceptível a todos os momentos... Se acha de que não se pode escutar atrás das portas, mas que
se pode matar à mão armada uma velha que cai nas unhas, então fuja
o mais depressa possível para qualquer parte”.
Svidrigáilov, o duplo
de Raskolnikov, ri dele, da mesma forma que o Diabo, o duplo de Ivan
Karamazov, diverte-se a suas custas. Ambos representam a dúvida do
“indivíduo extraordinário” em si próprio. Agora o herói só
tem duas escolhas: matar-se ou entregar-se. Ele não tem força de
vontade suficiente para se matar, então entrega-se às autoridades.
Isso não é um sinal de penitência, mas pusilanimidade: para ele, o
castigo é uma “vergonha desnecessária” e um “sofrimento
inútil”. Ele reflete desdenhosamente: “E como chegou a esse
ponto em que eu no fim... serei humilhado, serei humilhado com a
minha condenação”.
Raskolnikov vai até
Sonya num estado de irritação e tristeza, e pede uma cruz: “Isto
é um símbolo, quer dizer que hei de trazer esta cruz em cima de
mim, he, he!”. Sua risada é blasfema e mostra
o ódio que sente por Sonya, que o está enviando para um fim
desgraçoso... Lembrando-se das palavras dela (“faz
uma reverência às pessoas”), ele se ajoelha
na rua... mas não consegue confessar o “Eu matei”. Vai até a
delegacia e volta. Vê Sonya parada na soleira. Entra novamente no
prédio. Por fim, declara: “Fui
eu quem matou aquela velha viúva e a sua irmã Lisavieta, com um
machado, para roubá-la”.
A tragédia de
Raskolnikov termina com um epílogo. O criminoso já passou um ano e
meio em servidão penal. Sônya seguiu-o até a Sibéria, mas mesmo
assim ele “a
fazia sofrer com a sua conduta depreciativa e grosseira”.
Teria ele mudado? Não, ainda é o mesmo - solitário, rabugento,
orgulhoso. “Analisava-se
severamente e a sua rígida consciência não sentia nenhum horror
particular no seu passado, a não ser talvez, simplesmente, no
fracasso, que teria podido acontecer a qualquer um . . . Mas
ele não se arrependia de seu crime”.
“ 'Ora
vejamos: por que é que a minha conduta vos parece tão
ignominiosa?', dizia ele para consigo, 'Por que fui... mau? Que
significa a palavra ''mau''? A
minha consciência está tranquila.'
”. Nas palavras “minha
consciência está tranquila” a última
verdade sobre Raskolnikov é de repente revelada. Ele é, de fato,
um super-homem. Não foi derrotado: conquistou. Ele quis testar sua
força e descobriu que não havia limites para ela. Ele quis
“ultrapassar o obstáculo” e ultrapassou o obstáculo. Ele queria
mostrar que a lei moral não tinha relevância para si, que ele
estava além dos limites do bem e do mal, e agora sua consciência
está tranquila. Ele não foi arruinado porque “sua separação da
humanidade mostrou-se uma fonte de tormento” - ah, não, ele adora
sua solidão orgulhosa - ou porque “sua cabeça não aguentou” -
“a natureza rendeu-se” - tudo isso é besteira. Sua própria
força teria sido suficiente. Não é sem razão que Porfíri
considerou-o um “lutador forte” e Svidrigáilov disse que “o
senhor
saiu-me um cínico de marca. Matéria para isso tem-na o senhor e
grande. O
senhor é capaz de imaginar muitas, muitas coisas... vamos lá... e
também de fazê-las.”
Nem foi ele arruinado porque Porfíri o pegou com sua “psicologia
da faca de dois gumes”. Ele não foi intimidado nem mesmo por
Porfíri. Somente quando está servindo a sentença, ele percebe a
razão de sua queda. “Sentia
sobretudo vergonha de que ele, Raskólhnikov tenha arruinado-se,
inábil e absurdamente, devido
a uma sentença do destino cego”.
Essa última característica coroa sua imagem majestosa. Nenhum
adversário é digno do indivíduo extraordinário; ele tem somente
um inimigo - o destino. Raskolnikov foi levado à destruição como
um heroi trágico em luta contra o destino. Mas como o autor
apresentaria essa audaciosa verdade sobre o novo homem aos leitores
da revista de Katkov em 1860? Ele precisava disfarçá-la, jogando um
véu inocente sobre tudo. Fez-o, porém, apressadamente, sem cuidado,
"logo antes da cortina final". Quando o herói está no
campo de trabalhos forçados, logo após recuperar-se de sua doença,
ele se joga aos pés de Sonya... e começa a amar “Estavam
ambos pálidos e abatidos; mas naqueles rostos doentios e pálidos
brilhava já a aurora de um renovado futuro, de uma plena
ressurreição para uma nova vida. O amor ressuscitava-os.”
Mas, o autor adiciona discretamente “aqui
começa já uma nova história”. O romance
termina com uma vaga antecipação da renovação do heroi. É
prometida, mas não mostrada. Nós, entretanto, conhecemos
Raskolnikov bem demais para acreditar nessa “mentira branca”.
"Crime e castigo"
ressuscita a arte da tragédia antiga na forma de um romance moderno.
A história de Raskolnikov é uma nova personificação do mito da
revolta de Prometeu e da trágica destruição do herói na sua luta
contra o destino. Mas Dostoievski, o grande escritor Cristão,
adiciona uma dimensão infinitamente mais profunda ao significado do
mito. É ao povo russo que o autor dá o papel de fazer o julgamento
final do “indivíduo extraordinário”. Em um momento “caíram
todos, com raiva, sobre ele. 'Tu
és um ateu! Tu não acreditas em Deus!', gritavam-lhe. 'Temos de te
matar'.”Esse julgamento,
expresso pelo povo, traduz a ideia religiosa do romance. O coração
de Raskolnikov “complicou-se”; ele não acredita mais em Deus.
Para Dostoievski, o ateísmo implica necessariamente na deificação
do homem. Se Deus não existe, então “eu” sou deus. O
“individuo extraordinário” tentou libertar-se de Deus - e
conseguiu. Sua liberdade era infinita. Mas nisso, ruína infinita o
aguardava. Liberdade de Deus revela-se pura perniciosidade, renúncia
a Cristo é escravidão ao destino. Depois de traçar o curso
da liberdade ateia, o autor encaminha-nos a uma religião baseada em
sua visão do mundo: não existe liberdade além da liberdade em
Cristo; aquele que não acredita em Cristo fica sujeito aos poderes
do destino.
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